piątek, 11 stycznia 2019

Em busca da Modrý Portugal

Essa casta de uvas tinta cultivada na Europa Central inspirou-me pelo seu nome relacionado a Portugal, para aproximar aos leitores lusófonos dos vinhos da Morávia, uma das três regiões históricas da República Tcheca. Dependendo do país, a casta é conhecida também como Blauer Portugieser (Áustria), Portugieser/Kékoportó (Hungria), Portugizac Plavi (Croácia), Modra Portugalka (Eslovênia), Portugizer (Sérvia). A bem da verdade, não se sabe qual é a origem dela. Algumas fontes afirmam que terá sido Johann von Friest, ampelografista e botânico austriaco, que a descobriu em Portugal, implementando posteriormente na sua herdade de Vöslau.

Embora meu blog Winne Refleksje seja destinado aos vinhos portugueses e brasileiros, o nome da casta provocou, obviamente, uma exceção natural. Espero que gostem da ideia.


A República Tcheca é um país vizinho da Polônia há muitos séculos. O antigo provérbio diz “de vizinho ruim, nem o diabo quis saber”. No caso dos tchecos não é nada disso. Pelo contrário, o mais adequado seria o outro, a saber "com teu vizinho, casarás teu filho e beberás teu vinho". Os tchecos despertam-me emoções muito positivas pelo seu caráter nacional e cultura. Por incrível que pareça, mesmo que o polaco e tcheco pertençam ao grupo de línguas eslavas, prefiro, contudo, conversar com eles em inglês ou em português como é o caso de meus contatos profissionais com a Embaixada do Brasil em Praga. E a capital tcheca? Na minha imaginação parece um diálogo metafórico eloquente entre os séculos e as épocas que lá deixaram vestígios permanentes, na forma de uma arquitetura excepcional e, também, um sussurro de objetos do cotidiano olhando por trás das janelas de inúmeras lojas de antiguidades.

Ora bem, vamos voltar, contudo, aos nossos vinhos morávios provados por mim pela primeira vez quase duas décadas atrás, de fato por acaso, no caminho para o Norte da Itália. Lembro que fiquei bastante surpreendido com a qualidade deles. Em 2013, decidi fazer um curso de vinhos na Morávia que me permitiu, entre outras coisas, compreender melhor os vinhos produzidos na República Tcheca.
Regiões vitivinícolas
Felizmente, a divisão é simples e exata, uma vez que existem apenas duas regiões e algumas sub-regiões:

Região Vitivinícola Boêmia (Vinařská Oblast Čechy), dividida em duas sub-regiões vitivinícolas:

- Sub-região Vitícola de Litoměřice (Litoměřická vinařská podoblast)
- Sub-região Vitícola de Mělník (Mělnická vinařská podoblast).

Região Vitivinícola Morávia (Vinařská Oblast Morava), dividida em seguintes sub-regiões :

- Sub-região Vitivinícola de Slovácko (Slovácká vinařská podoblast),
- Sub-região Vitivinícola de Velké Pavlovice (Velkopavlovická vinařská podoblast),
- Sub-região Vitivinícola de Mikulov (Mikulovská vinařská podoblast),
- Sub-região Vitivinícola de Znojmo (Znojemská vinařská podoblast).

As acima referidas sub-regiões dividem-se ainda em comunas vitivinícolas que reúnem os vinhedos e parcelas cadastradas.

Vale a pena destacar que cerca de 96% da produção de vinhos tem a sua origem na Morávia. Por conseguinte, é melhor fazer essa distinção se falarmos dos vinhos tchecos em geral. A vitivinicultura local tem uma longa história. Teriam sido os legionários romanos que plantaram as primeiras vinhas.

No que diz respeito à classificação qualitativa dos seus vinhos, os tchecos adotaram um sistema bastante parecido ao alemão, ou seja, avaliando a maturação da uva durante a vindima e, consequentemente, o teor de açúcar no mosto.
É importante adicionar que, não há muito tempo, isto é, em 2009, foi adotado também o sistema de denominação de origem controlada VOC (Víno Originalní Certificace). Por enquanto, o sistema existe apenas na Sub-região Vitivinícola de Znojmo – VOC Znojmo.

Nos rótulos constam também as denominações conforme o teor do açúcar residual no vinho
suché – seco
polosuché – meio-seco
polosladké – meio-doce
sladké – doce

Um grande problema para os amantes lusófonos de vinhos podem ser as designações das castas de uvas tchecas. Nas regiões Vitivinícolas da Boêmia e Morávia podemos encontrar 27 castas tintas e 24 brancas, inclusive as internacionais. Algumas delas resultam de cruzamentos das cepas frequentemente realizadas na República Tcheca durante a época comunista, por exemplo, Pálava, Aurelius (castas brancas), Neronet (casta Tinta). De qualquer modo, para facilitar o entendimento dos rótulos , elaborei um pequeno glossário :

Castas brancas
Ryzlin Rýnský (Riesling), Ryzlink Vlašský (Welschriesling), Rulansdské Bílé (Pinot Blanc), Rulansdské Šedé (pinot gris), Sylvánské Zelené (Sylvaner), Vetlínské Zelené (Grüner Vetliner), Neuberské, (Neuburger), Tramín Červený (traminer).
Castas tintas
Frankovka (Blaufränkisch, Kékfrankos), Modrý Portugal (Portuguiser), Rulansdské Modré (Pinot Noir), Svatovavřinecké (Sankt Laurent).




A região vitivinícola de Morávia situa-se mais ou menos no mesmo paralelo que as regiões vitivinícolas da Alemanha ou na Alsácia. Contudo, o clima morávio é mais frio, uma vez que tem o caráter continental e não atlântico como é o caso das regiões vinícolas alemãs.


Sem dúvida, o estilo de vinhos morávios é nórdico. Em geral, são vinhos bastante leves, austeros, com boa acidez e relativamente baixo teor alcoólico. Os viticultores locais destacam sobretudo os vinhos brancos, mas vale a pena provar os tintos que podem ter uma boa fruta e um equilíbrio. Recomendo provar também os vinhos pozdní sběr (colheita tardia) ou mesmo polosladké – meio-doce justamente por causa daquele equilíbrio sofisticado entre a acidez nórdica e o açúcar residual.

Os vinhos morávios não são muito conhecidos no exterior, uma vez que a produção nacional cobre apenas 40% do consumo doméstico, que gira em tornos dos 21 litros per capita ao ano.

Para os apreciadores dos vinhos biológicos, a Morávia parece ser uma terra prometida. Alguns anos atrás surgiu o movimento de Autentistas que reúne os pequenos produtores, que têm por objetivo a produção de vinhos de forma mais natural possível, com a intervenção humana reduzida ao mínimo. Sem entrar muito nos detalhes, o movimento de Autentistas sofreu um cisma, organizando agora dois festivais distintos de vinhos naturais: Autentikfest (http://autentikfest.cz/) e Letní slavnost autentických vín (https://www.facebook.com/julyrendezvous/).

Turismo
A Morávia é um excelente destino para passar as férias em bicicleta. A rede de ciclovias é bem desenvolvida, conectando as principais cidades históricas como, por exemplo, Mikulov e Veltice, além de pequenos vilarejos, com inúmeras caves com bons vinhos locais. O ambiente é descontraído e sem pretensões. No ano passado passei 5 dias andando de bicicleta com a esposa e filho de 6 anos. Estávamos instalados no parque de camping Apollo, a 3 km da cidade histórica de Lednice.
As ciclovias frequentemente passam por perto de pequenos produtores de vinhos, aonde podemos descansar com uma pequena taça de Vetlínské Zelené. Contudo, a minha “missão enológica” foi procurar os vinhos tintos feitos a partir da casta Modrý Portugal. Infelizmente, dessa vez não achei muitos rótulos, uma vez que a casta frequentemente fazia parte de um blend com, por exemplo, a Frankovka. Por outro lado, provei outros vinhos tanto brancos como tintos, laranja e rosé que despertaram minhas emoções. De qualquer modo, tenho agora mais motivação para dar, em breve, mais uma volta por terras morávias em busca da misteriosa casta Modrý Portugal.


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